quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

DA SÉRIE: CONTOS DO FARRAZINE

O Velho

* Desenho de Mainardi

Era um dia frio de inverno, um desses em que o sereno começa a aparecer já no fim da tarde e o sol parece ter olhado para baixo, acordado e ido o mais distante possível da cambada de malucos do planetinha azul. Também era dia de jogo de futebol, embora o sol, o sereno e eu não pudéssemos ligar menos significado à coisa. Mas acontece que um amigo tinha chegado à cidade e, em vez de ficarmos em casa tomando vinho quente com canela e conversando (como sugeri), ele resolveu que era imprescindível que saíssemos e observássemos o movimento da rua. Um desses caras recém-divorciados que resolvem se considerar um presente de Deus para as mulheres e recuperar o tempo perdido, você conhece o tipo.

Aí, acabamos no segundo andar de um bar, ouvindo os gritos do térreo, onde estavam projetando o jogo em um telão. Eu não entendia como as pessoas podiam sair de casa em uma tarde daquelas para assistir vinte e dois caras tentando colocar uma bola através de quatro traves e se carneando no processo. Mas eu sou eu, e eles são eles. Uma filosofia que até então ninguém havia contrariado. Mas o mais chato não era o meu amigo fazendo olhares para meninas da metade da idade dele, nem os gritos que vinham de baixo. Era o velho.

Óculos de tartaruga, um enorme sobretudo preto, cabelo e barbas brancas e uma testa que daria pouso a mosquitos de qualquer capacidade de carga. Ficava bebendo e gritando “carpe diem” a espaços curtos de tempo. Às vezes erguia a caneca e brindava em nossa direção. Eu, hein?

A coisa seguiu assim por mais ou menos meia hora, até que decidi erguer a taça na direção do velho, também, e brindei a resposta para a frase dele:

- Memento Mori.

CRASH!!!

Era a caneca do velho quebrando no chão. Me amarro numa onomatopéia. Ele só ficou nos olhando com aquela cara espantada de quem vê pela primeira vez um prato de sushi, imóvel. Claro, comecei a me arrepender. Não tinha sido bonito. Mas fora instintivo, quase. Enquanto o velho gritava “aproveite o dia”, eu tinha respondido “lembre-se que morrerás”. Mas era a resposta, não era? As duas filosofias discordantes. Só que memento mori não deveria ser usada em um bar, ainda mais com um senhor que não precisava lembrar que memento mori. Pensei em pedir desculpas. Mas ele levantou e se dirigiu à nossa mesa:

- Você é da ordem?

- Não. Eu sou do caos. Sabe, tem essa teoria: a ordem tende a degenerar em caos, enquanto o caos sempre vai crescer a níveis mais complexos de entropia. Daí, acho que é melhor ficar do lado que está vencendo...

- Quero dizer da ordem dos segredos.

- Hã... não?

- Ah, desculpe. É que era uma das senhas que nós usávamos. Antigamente.

- Arram...

Tá, eu ia dizer o quê, então? Aliás, qualquer um que tenha visto meu quarto sabe que não sou muito de ordens... Depois, se começasse a concordar com o velho era capaz de ele me convidar a sacrificar uma cabra qualquer dia e eu, embora goste de churrasco, não valorizo muito o sangue. Exceto em morcilhas.

Mas era tarde: reminiscências tinham assaltado o cara:

- Sabe... nós nos reuníamos nesse lugar, tempos atrás. Esse bar nem tinha sido construído.

- Arram.

- Buscávamos conhecimentos perdidos. Vida longa, influência... mas já faz muito tempo...

- Arram.

- (Acho que esse velho tá a fim de ti.)

- (Calaboca.)

- Enfim, todos se foram. Só fiquei eu. Mas descobri algumas coisas no caminho...

- Arram.

- Bom, eu já vou indo. Prazer em conhecer vocês.

- Arram.

E foi isso. Dois meses depois meu amigo me liga, apavorado, dizendo que achou uma foto do velho, e eu sugeri que eles se procurassem, não existe essa história de certo ou errado, se duas pessoas se gostam. Daí ele apareceu com uma cópia da foto no outro final de semana, e datava de quase dois séculos atrás. Era o velho, embora a barba não estivesse tão comprida, nem tão branca. A legenda dizia: A Ordem dos Segredos – 1812. Dissidentes do positivismo no Rio Grande do Sul, com viés místico, a seita desfez-se e desapareceu na história.

Talvez por uma boa razão. Fica difícil esconder a imortalidade se você fica aparecendo na história toda hora. Voltei ao bar depois. Até enxerguei o velho outras vezes. Mas preferi não me aproximar muito. E você, faria o quê? Ademais, a ideologia positivista sempre pareceu com algo que o gato cospe no tapete, pra mim. Nem quero ouvir falar da dissidência.
Publicado originalmente no Farrazine #6. Baixe a edição aqui ou leia online aqui.


2 comentários:

fernandes disse...

Cara, muito bom o conto. Simples, porém bem construído. Um deleite.


Agora uma nota:

"- Sabe... nós nos reuníamos nesse lugar, tempos atrás. Esse bar nem tinha sido construído."

Acho que o está errado o uso do pronome demonstrativo. Pode ser impressão minha, mas não seria "neste lugar" e "este bar"? Enfim, uma coisinha de nada e é provável de que eu esteja errado.

Gostando de conhecer o Farrazine.

Abraços e sucessos!

rdelton! disse...

Valeu pelo comentário Fernandes!

Interessante o detalhe que você chamou a atenção... O português tem essa peculiaridade na forma de poder escrever que chama a atenção pela riqueza da nossa língua em expressões...

Vou pesquisar sobre esses pronomes demonstrativos, mas acho que as duas maneiras (Ou seja, o do seu comentário e o do conto)estão corretas, até porque o Invino, que escreveu a estória, é um tremendo chato com o português! :P

Um abração e se quiser participar do zine as portas estão abertas!
R!

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