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quinta-feira, 19 de maio de 2011

CONTOS DO FARRAZINE

O Poeta - Marcelo Soares do site Uarevaa





Ficava ali sentado, olhos atentos para o nada, fixos em lugar nenhum. Na mão direita o cigarro queima erguendo uma fumaça que gera imagens só percebidas por ele. Na boca a secura provocada pelo vicio, o vicio da água de chuva destilada que não toca os seus lábios há algumas horas.

Os papéis sobre a mesa a sua frente mostram os seus poemas, delírios de uma mente há muito tempo desconectada dessa realidade. Junções de palavras desprezadas pelos que ali passam. “Sem graça”, “não tem sentido”, “pseudo-poeta”, dizem as vozes quando se retiram de perto do homem sentado com olhar fixo. Ele sabe o que falam, não dá ouvidos ou a mente nem processa mais. Aquelas letras reunidas são um escape, um portal para seus pensamentos, seus desejos.

O cigarro se apaga em seus dedos, o movimento de seres fantasmas ao redor cessa. Seus olhos pesam, um vento leve que chega vindo de um além qualquer leva os papéis ao chão. O homem por trás da poesia era levado também.

Os olhos dele se fecham enquanto o cigarro cai de sua mão e a respiração lentamente desaparece, tudo junto com a ida de seu queixo de encontro ao seu peito. Sua poesia suspende-se no ar, levada pela brisa. O poeta, enfim, transporta-se para sua realidade.


Texto publicado no Farrazine #17 que você pode ver online aqui ou baixar aqui

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

SANGUE E REZA - Contos do Farrazine

Por Marcelo Soares

A chuva caía como lágrimas de algum Deus tristonho. David sabia que seus momentos finais estavam chegando. A mão trêmula segurando um canivete, enquanto se ancorava no muro de uma rua qualquer da cidade, denunciava seu fim. Afinal, em tantos anos, nunca tremera ao segurar uma arma. A sua mente tentava animá-lo, dizendo que era só por causa da perda de sangue, fruto de um corte na barriga, por conta de um capricho de uma faca bem afiada. Porém, ele não é idiota, pensou, enquanto as gotas de chuva lhe atrapalhavam a visão, sua hora havia chegado e nem reza brava para algum dos santos de sua mãe o salvaria.

O olhar se mantinha atento aos movimentos de seus dois prováveis executores, velhos amigos de infância: Bruno e Roberto. Ainda se lembrava do tempo em que jogavam bola juntos. Agora são seus assassinos, só porque ele dera para trás em um assalto, e acabou que o Raimundo, o quarto mosqueteiro, fora preso. Eles o culpavam por isso.

- Vai fazer o que agora, “irmãozinho”? – perguntou Bruno, segurando a faca com sangue que, minutos antes, furara a barriga do ex-amigo.

Ele tinha razão. Dois contra um, ainda mais ferido e fraco a cada segundo.

- É, pena chegarmos a esse ponto, não é? – retrucou David.

Por um instante, tudo parou. Os olhares se encontraram, e David sabia que era o momento decisivo. Com um grito de fúria, ele partiu para cima de Bruno, levando o pequeno canivete em um movimento rápido para dentro do olho direito do antigo amigo. O grito de dor de Bruno ecoou pela rua; sua única reação foi enfiar a faca com toda a força mais uma vez na barriga do amigo, dessa vez, mais para o lado esquerdo, acertando um ponto intacto até então.

Roberto só apreendeu o acontecido quando David caiu no chão, com a faca presa ao corpo, se encaminhando para a morte. Bruno gritava como louco, após tirar o canivete do olho e, como uma besta enfurecida, agora provavelmente cego, pegou o canivete e enviou-o aleatoriamente no corpo caído na rua.

- Seu desgraçado! – gritou Bruno, enfurecido.

- Pára, cara, vamos embora, já foi - interrompe Roberto, segurando-o.

Os dois pararam de falar e olharam por um momento para o amigo morto. Bruno retira a faca presa no corpo e sai caminhando, sendo seguido pelo companheiro de crime. O sangue corre, misturando-se com a água da chuva. Nenhum santo apareceu, e uma mãe iria chorar na manhã seguinte.

Conto publicado no Farrazine #12 - Leia online aqui ou baixe-o aqui

 
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