quinta-feira, 28 de abril de 2011

CONTOS DO FARRAZINE

A regeneração do desconstruto por Carlos Panhoca



Não me lembro direito de como cheguei aqui. Lembro-me de ser um inteiro incompleto no começo da minha jornada. Abandonei-me aos poucos. Não conseguiria isso sem a ajuda de meus avôs. Sem eles eu nunca teria doado meu rim. E nunca largaria a venda que me impedia de ver o mundo. As dores que antes eu afogava começaram a me atingir. Cruzei várias fronteiras. Esperando que a humanidade mostrasse para o que veio.

Meus órgãos que filtravam preencheram minha televisão. Preguei meu cérebro no coração de Jesus. Deixei minhas pernas aos pés da montanha. Subi ao cume. Obtive a vista panorâmica. Alimentei os pássaros com meus olhos. Selei meu coração numa carta à NASA. Num ato de misericórdia, doei meu esqueleto e dei origem a uma nova espécie de minhocas estruturadas.
Abandonei o resto em algum lugar. Não me lembro como saí da montanha. Aqui estou. Ascendi aos céus. Encontrei-me frente a frente.

Por quê? Por que nos fez assim? Qual foi o nosso grande pecado?

Silêncio.

Não. Não, você. Você já não é mais o mesmo que eles. Você deixou sua natureza.

Diga-me o que sou. Diga-me você o que é.

Eu sou o criador, sou o onipresente.

E tu, o que és?

Eu sou o desconstruído, e sou presente em todos, mesmo não sendo onipresente.

Então você também é Deus.

Não. Não nasci para ser isso. Eu sou a ideia. Sou o fruto. O que te torna a mordida.

Por quê?

Porque você é a criação, e eu sou a desconstrução.

Mas você fez a gênese através da minhoca. Não. Eu dei o osso.

Ela fez a nave. Simetria bilateral e regeneração. São só conceitos. Conectou-se com a natureza. A natureza é o coma.

Canso-me disso. Você sabe porque veio até aqui.

Não, vim aqui pedir sua explicação.

Por que castiga-nos?

Não castigo a ninguém, nem você, nem a humanidade. Faço o que posso por eles, se dúvidas, tome o meu lugar.

Não posso. Eles são o que eu já fui. Assim como eles já foram a minha imagem e semelhança.

E como é o peso do mundo sobre as suas costas?

O mesmo de um atlas. Insignificante. Então aceito o seu lugar.

Mas você sabe o que vou fazer.

Sei.

E não vai tentar me impedir?

Se eles são o tumor, salve a criação máxima. Achei que eles fossem a criação máxima.

Não, eles lutam por terra e morrerão pela falta de sementes. Se essa é a sua vontade então eu ordeno: Frutos, parem de gerar sementes!

Era só uma metáfora, mas funcionará. Por que você não os descriou?

Não posso. Sou igual a eles. Então temo que seja hora de eu te levar também.

O tumor é a regeneração desenfreada. Adeus.

Olá, chama-se Adão. Você ainda é o primeiro de sua espécie. Dê-me um de seus anéis e farei uma fêmea para que vocês mantenham o seu legado. Como vocês querem ser chamados?

Seremos chamados de idéias.

Saiu no Farrazine 19 que você pode ler aqui

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