Mostrando postagens com marcador Joao Baldi Jr. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Joao Baldi Jr. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 6 de setembro de 2011

O desafio de Shazam - Contos do Farrazine

“Então, eu vou chegar e vou dizer... Oi, Kathy, lembra de mim? Sou eu, Billy? Billy Batson? Se lembra?”

“Eu acho que você tá dando muito papo, sério. Muito lento. Muita conversinha. Precisa ser mais rápido.”


“Quieto, Mercúrio, sério. Me deixa ensaiar direito, ok? Eu gosto da Kathy, quero que tudo dê certo na festa... Vamos de novo... Kathy, eu...”
 

 “Sério, isso tá muito demorado... Ensaiar pra quê? Vai logo. Pra que esperar a festa? Liga pra casa dela. Quer dizer, pra que ligar? Vamos pra lá agora!”


“Mercúrio, não tem como fazer assim! Caramba! Eu tenho que esperar a hora certa, fazer direito, pelo amor de Deus!”





“Deus não, deuses, Billy Batson.”


“OK, Salomão, OK... Vacilo meu... Mas tá entendendo, Mercúrio? Eu tenho que esperar a hora certa, o clima certo, chegar do jeito certo... Eu só vou ter uma chance, entende? Preciso acertar a hora H pra...”

“Como assim, só uma chance?”

“Ah, saco... O que é que tem, Atlas?”

“Esse papo de "só uma chance"... Você tem várias chances! Você pode tentar e tentar e tentar e tentar e eternamente tentar, até que ela aceite. Você tem meu vigor, Batson! Você pode tentar e tentar e tentar, até que ela desista porque sabe que você pode continuar tentando e tentando e tentando e tentando...”

“Mas eu não quero vencer ela pelo cansaço, Atlas! Eu quero que ela goste de mim! É por isso que eu estou juntando coragem pra poder—“

“Nem diga isso...”

“Isso o quê, Aquiles?!”

“Coragem. Você disse que está juntando coragem.”

“E qual o problema nisso?”

“Por favor, eu sei o que é coragem. Eu atacava cidades sozinho sem pestanejar. Eu derrotava gigantes usando uma colher e meio pão dormido. Você está agindo como um franguinho por causa de uma mortal espinhenta de quatorze anos. Não me venha falar em coragem, por favor...”

“Que porcaria, vocês poderiam ficar quietos por um—“

“E continua demorando... eu já teria ido na casa dela...”

“Mercúrio, último aviso, para com isso! Será que eu não posso—“

“Claro que pode.”

“Posso o quê, Zeus? Você nem sabe o que eu ia falar!”

“Seja o que for, você pode. Eu tenho o poder, você tem o poder, então você pode. Se você quiser jogar um raio nessa tal da Kathy, você pode, sabia? Ou virar um animal e se deitar com ela, ou tomar a forma do marido dela...”

“Por que diabos eu faria uma coisa dessas?!”

“Bem... sempre funcionou comigo... eram outros tempos, eu sei... mas os clássicos nunca morrem, é o que dizem...”

“Será que vocês não podem ficar quietos pelo menos por cinco minutos pra que eu tente me preparar pra pedir em namoro a mulher da minha vida?! Será?! Hein?!”

“Receio que você esteja enganado, Billy Batson.”

“Ah, céus... O que será agora? Vai, diz logo, Salomão...”

“Bem, Billy Batson, primeiro, eu preciso dizer que qualquer um sabe que não existe racionalmente isso que você chamou de “mulher da sua vida”. Existem, é claro, pessoas com quem você vai ter maior ou menor compatibilidade, mas nada garante que a mesma pessoa vá refletir e corresponder aos seus desejos e anseios durante todo o período da sua existência.”

“Por favor...”

“E, mesmo se isso fosse possível, com ênfase no “se”, as possibilidades de que Kathy Beck seja essa pessoa são ínfimas. A bagagem cultural de vocês dois, ainda que reduzida, devido ao pouco tempo de vida de ambos, é totalmente oposta; o temperamento da Srta. Kathy é, de fato, considerado muito difícil por todos que a cercam e, ainda que hoje ela tenha um rosto realmente angelical, é possível notar, reparando nos traços de sua genitora, que este rosto gradativamente irá mudar, assim como o resto do corpo, fazendo com que ela ganhe peso rapidamente e passe a ter uma postura curvada e olhos caídos, que evidentemente passariam para os seus descendentes.
E não é sábio ter filhos com olhos caídos.
Como se não bastasse isto, é possível para qualquer pessoa com mínimas capacidades de observação notar que ela não nutre nenhum interesse por você, e sim uma especial afeição pelo jovem Bill Clarence, da equipe de atletismo.”

“Por favor, parem... sério...”

“Eu já teria ido até a casa dela e ficado com ela. Umas seis vezes...”

“Vocês não conseguem realmente calar a boca, certo? Todos precisam ficar dando opiniões o tempo todo?! Todo mundo já falou? Hein? Hein? Alguém ainda quer dizer alguma coisa?!”

“Bem, eu já teria—“

“Fora você, Mercúrio! Hércules, você é o único que ainda não falou... Vai, pode ir... Manda... Já desisti da festa mesmo...”

“Não, eu pensei em uma coisa, mas não é nada demais...”

“Vai, fala!”

“Não... nada não... besteira minha... tô tranqüilo...”

“Nesse meio tempo você poderia ter já—“

“Mercúrio! Cala-A-Boca! E Hércules, fala logo...”

“Sério, bobagem mesmo, nada demais... deixa pra lá...”

“OKk, então eu não vou mais—“

“Então... é uma coisinha... queria te perguntar...”

“O quê, Hércules? Fala logo...”

“Tipo... você, com esses braços magrinhos... já pensou em começar a malhar?”


Conto publicado no Farrazine #14 que você pode ler aqui ou baixar aqui

terça-feira, 19 de abril de 2011

CONTOS DO FARRAZINE

CPF - de João Baldi Jr. 






 
“Eu vim aqui regularizar o meu CPF”
“Tá, me passa o número dele então...”
“Bem, o número é xxxxxxxxxxxxxx”
“Ok, me deixa ver...”
“Tá irregular, eu sei...”
“Bem, não tá não...Aqui tá tudo certinho...”
“Tá sim. Eu sei que está irregular, olha direito”
“Não, tá tudo ok. Olha aqui na tela.” - Virando a tela pra ele
“Você tá mentindo. A menina me disse que está irregular...”
“Que menina? Qual delas?”
“Uma menina da minha rua.”
“Não foi uma menina do banco?”
“Não, ela não é de banco não... Não confio em gente de banco...”
“Ela é da receita federal, certo?”
“Não, nada de receita federal não... Nada disso”
“Como ela sabia do seu CPF então? Como ela sabia que estava errado? O senhor foi fazer alguma compra? Ela olhou no site da receita?”
“Não, eu já expliquei... Ela é minha vizinha, olhou meu CPF e disse que estava irregular...”
“Olhou aonde? Que sistema?”
“Olhou com o olho, garoto... Você está me irritando... Ajeita isso logo e pára de perder meu tempo...”
“Me deixa ver se entendi... A vizinha do senhor, que não trabalha em nenhum tipo de instituição que poderia verificar o seu CPF, informou para o senhor, com base apenas na opinião dela, ao olhar para a carteirinha, sem nem mesmo acessar o site da receita, que o CPF está irregular, e o senhor veio aqui?”
“Isso mesmo...”
“E agora, quando eu olho aqui no sistema, onde diz que está tudo certo e mostro pro senhor, o senhor não acredita, porque não confia em gente de banco feito eu, certo?”
“Finalmente você está entendendo...”
“Mas se o senhor não acredita em gente de banco, como eu posso regularizar pro senhor? Porque se eu disser que regularizei, o senhor vai acreditar?”
“Bem...”
“Então... Eu acho que o senhor deveria pedir pra sua vizinha regularizar o CPF pro senhor...Ela olha e como só ela viu o problema, ela mesma resolve, o que o senhor acha?”
“Até que é uma boa idéia... Você não é tão burro assim, rapaz...”
“Ah, eu apenas quero ajudar o senhor... E pede pra ela ajustar a identidade também, notei aqui no sistema que tem um problema nela... E sua carteira de motorista está vencida, ainda que não pareça.”
“Pode deixar, vou pedir sim, claro. Humm...”
“Mais alguma coisa, senhor?”
“Eu acho que não... Tudo bem... Até mais então...”
“Ah, até a próxima. Boa sorte pro senhor...”

Este conto foi publicado no Farrazine #16 e você pode baixar aqui ou ler online mesmo aqui

 
Design by Wordpress Theme | Bloggerized by Free Blogger Templates | coupon codes